A promiscuidade entre o mundo político e o dos negócios

A propósito do setor automotivo ter recebido “este ano mais de R$ 2,8 bilhões em ajudas e isenções fiscais – o suficiente para construir três estádios da Copa”, Rodrigo Saraiva Marinho me perguntava – “será que está na hora de rever a relação do governo com as montadoras?” -, comentando com uma afirmação de Rothbard: “Toda a vez que os empresários e o Estado se juntam pode ter a certeza que você será roubado.”

Uma crítica à limitação da concorrência e à concertação de interesses que, já no seu tempo – período mercantilista –, levou Adam Smith, na parte respeitante às “Desigualdades que resultam da política na Europa” (em Riqueza das Nações) a afirmar: ”É raro que pessoas que exercem a mesma atividade se encontrem, mesmo numa festa ou diversão, sem que a conversa acabe numa conspiração contra o público, ou numa maquinação para elevar preços.”

Um mal que hoje regressou com o neomercantilismo dominante em Portugal e na União Europeia. Uma “maquinação” assente na promiscuidade entre o poder político e as empresas do regime. Um capitalismo de Estado que fomenta e fortalece as ligações entre o mundo da política e o dos negócios. Uma perversidade que, em termos de imagem pública, é, em geral, disfarçada pela habilidade que essas empresas revelam em se maquiarem para a fotografia de forma a conseguir estar na primeira linha dos rankings de cidadania empresarial por via da sua associação às preocupações sociais e ecológicas: a um mundo mais verde.

O segredo está na capacidade que essas empresas protegidas têm de apagar a palavra ética, tida como fora de moda. Substituindo-a por expressões mais simpáticas: “responsabilidade social da empresa ou corporativa” (RSE ou RSC) e afins, como “sustentabilidade” e “desenvolvimento sustentável”. Uma tendência acreditada pela mídia e seguida em Escolas de Negócios: hoje cada vez mais parques infantis para adultos. Foi assim que “business ethics” deu lugar a conceitos cientificamente mais manipuláveis e politicamente mais corretos. Como acontece na União Europeia: terra de uma catástrofe demográfica onde pululam peritos e organizações que vivem da nova indústria de fabricação de relatórios sobre RSE e/ou sustentabilidade.

Entretanto, a mesma imprensa, em muitos países da Europa – e, de modo especial, em Portugal – lamenta a insustentabilidade em muitas áreas da sociedade: da saúde à segurança social, sem esquecer as dimensões mais políticas, economicas e financeiras. E berra contra a falta de ética: das fraudes, multas e provisões por más condutas à manipulação de informação e escândalos de corrupção. Mas sem querer ver que os malditos são os seus validos. Os grupos de interesse instalados – os homens do sistema – que de forma ativa ou cúmplice arruinam os seus países. Alguns com currículo invejável, e todos insuspeitos: graças ao bom uso da “porta giratória” entre cargos políticos e empresariais e ao carinho com que a mídia segue o seu papel em organizações dadas a boas práticas e a nobres causas sociais, com cultura sempre à mistura.

Gente de bem que só quando apanhada – coisa que, em muitos países, não implica condenação alguma – se desnuda sem usar qualquer referência à ética. Com a “responsabilidade social da empresa ou corporativa” podendo justificar-se pela imagem e reputação, pelo posicionamento no mercado ou até pelos interesses econômicos e as restrições legais. E a sustentabilidade correndo o risco de ser sinônima de permanência no tempo: esvaziando-se de conteúdo e força, de modo a abarcar todo o tipo de atividades, incluindo as mafiosas, desde que apadrinhadas e bem acolitadas nos templos do regime.

Jim Stovall costumava lembrar que o essencial do comportamento ético, a que chama integridade, é fazer o “certo”, mesmo que ninguém esteja vendo. Já no mundo novo o “certo” é para aparecer. Transformando o “ser ético” em “ser social” de modo a impedir-nos de perceber – usando uma analogia com o mundo do futebol – por que um árbitro desonesto tem, em geral, o apoio de muito mais de metade do estádio. Talvez seja aqui oportuno recordar um poema de T. S. Eliot, que também se liga à sociedade da informação e do conhecimento em que vivemos: “Onde está a sabedoria que se perdeu no conhecimento? Onde está o conhecimento que se perdeu na informação?” Estabelecendo uma analogia com a substituição da ética pelos novos e mais enganadores conceitos: onde está a ética que se perdeu na responsabilidade social? Onde está a responsabilidade que se perdeu na sustentabilidade?

JusBrasil

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